O BBB12 mal começou e já estava recebendo uma enxurrada de críticas. Mas o que importa? O programa passou a ser um dos mais rentáveis da programação televisiva. Se existe dinheiro, existe investimento; quem consome. Pois bem, ele começou com aquela velha ladainha de sempre: o confinamento dos participantes, as chamadas empolgadas no meio da programação; o vazamento de informações sobre os membros; e assim por diante. Não gosto do programa, mas não temos como não saber sobre o que acontece com ele.

Confesso ter assistido o primeiro, há doze anos. Era novidade, empolgante e criativo. Pelo menos era isso que todo mundo pensava sobre o programa. No final das contas, era menos do que esperávamos; mais do que podia. Se podemos resumi-lo, diria que é uma novela sem script. Existe um roteiro mais ou menos elaborado: festa, bebida, eliminação e namoros. E de tudo isso, a única liberdade de criação é o diálogo: dizem o que querem. É verdade que as citações confusas, a filosofia barata e a lição de moral dos membros tornam-se um grande deboche.

O nome do programa, para quem não sabe, é uma alusão ao “Grande Irmão”, personagem fictício do romance de George Orwell, “1984”. No livro, as pessoas eram vigiadas pelas autoridades, que sabiam de tudo e de todos. O programa, que espalha nossos olhos por todos os cantos, nos dá a sensação de poder saber de tudo e ver tudo. Mas no livro, os olhos controlavam a vida; nossos olhos acompanham uma competição. Não há realidade, mas uma jaula com algumas cobaias humanas passando pela mesma experiência. Nós, do lado de fora, apenas julgamos, com critérios que não sabemos quais são até agora.

E nesse mundo de fantasia (que não é a realidade), o comportamento humano precisa se mostrar cada vez mais humano: não à-toa as pessoas se apaixonam, mentem, sofrem, traem, se ajudam e se torturam. Um punhado dos humanos, como numa amostragem com determinadas características, são postas num mesmo ensaio; onde a vida (ou a vitória) depende da “morte” e o “desaparecimento” de um dos membros. Num primeiro momento não é necessário acabar com a pessoa mais próxima, mas aquela que há menor afinidade.

Assim, quando o ser humano passa a tentar agir como humano, ele acaba criando sua própria caricatura: o atlético, o humorista, o chorão; o caridoso. Todos ali, espalhados em sua forma e o seu jeito de encarar a fantasia; ou como todos gostam de dizer “o jogo”. Não passa disso: uma competição do convívio. Uma competição irreal, programada e condicionada aos resultados que todos os espectadores precisam e querem: do vilão ao mocinho, da mulher perigosa à frágil.

E foi num desses condicionamentos, numa dessas situações tão corriqueiras; que a vida não seguiu seu caminho normal. Extrapolou. Um acontecimento irregular, fora das regras e longe da moral. Pelo menos não tão comum diante da vigilância de todos: Um homem bebe com uma mulher. A paquera tem lá seus limites românticos, mas também carrega sua pior liberdade instintiva. Dizem que o homem abusou, outros de que a mulher facilitou: uma discussão de séculos, sobre o vigente machismo e do estimulante feminismo. Quantos casais como esses podem sair das festas dos bairros chiques e das periferias das grandes cidades? Inúmeros. Tão vitimados, como vítimas. O sexo que se transformou da liberdade sexual na escravidão banal. O sexo ali, existindo ou não, sendo colocado hoje no seu indevido lugar: na ejaculação dos males o melhor. Crianças, o sexo é mais do que isso! Melhor do que isso! Mais importante, humano e transcendente do que isso! O programa tem mesmo o seu lado cultural: Como não devemos agir no mundo irreal.

E a vida continua entre os irmãos e irmãs dentro da casa. O choque é apenas mais um choque: acostumamos. E se continuarem competindo com a realidade aqui fora, poderão lá dentro fazer coisas piores. Alguém duvida? Mas continuaremos achando tudo muito natural. Decidiremos que a desculpa do confinamento; do dinheiro e do jogo dá a todos elementos para agirem de maneira mais desumana possível, pois é assim que percebemos o mundo!

Crianças, o mundo não é somente isso!!

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Sérgio Oliveira

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Sérgio Oliveira escreve no Informação Virtual sobre cultura, comportamento, política e opinião. Atualmente também escreve para os blogs HOJE É VINTE e Patativa da Bola.


 

3 Responses to DESCONECTADO: BBB – Quer projetar a pior realidade humana.

  1. avatar Cesar Augusto disse:

    Tenho dificuldades de entender esse tal de “reality show”, que de realidade não tem muita coisa, pois, parece que todos os protagonistas tem um roteiro pré-estabelecido. O coitado, o segregado, o necessitado o descamisado, o apaixonado não correspondido. Estão todos ali representados. Talvez no primeiro BBB houvesse um pouco mais de reality e um pouco menos de encenação, mas, atualmente todas aquelas pessoas parecem encarnar um personagem bem ao gosto do freguês, ou melhor, do telespectador. Não gosto do programa por vários motivos, mas, não dá pra passar batido, principalmente na celeuma da vez, o tal caso do estupro. E, como advogado, você é interpelado diuturnamente sobre o caso. É complicado analisar a questão, principalmente porque é difícil escapar do julgamento moral. Ouvi de tudo essa semana. Teve machismo, feminismo, racismo e outros “ismos”. Como sempre ninguém discutiu nada, ninguém refletiu ou ponderou. Manda o cara embora e segue o jogo. A reality sociedade brasileira atual. Rasteira e superficial. No final das contas o caso serve apenas para promover algumas celebridades de ocasião. É o delegado com a sua canastrice refletida nos óculos escuros, é o advogado da família com o seu palavrório incosistente e ameaças disso e daquilo. É o Ministério Público querendo os holofotes, também. Uma questão séria, pertinente, jogada no baú dos “quinze minutos de fama”. Pena.

  2. Achei boa e pertinente esta reflexão sobre o BBB, mas independente da abordagem “filosófica”, me incomoda muito quando o autor deixa trechos confusos e deficitários do ponto de vista da gramática e concordância da frase. Atribuo isto à pressa de postar o que escreveu sem fazer uma boa revisão do ponto de vista da boa escrita que propicia também o bom entendimento.
    Os trechos problemáticos são:
    “Um punhado dos humanos, como numa amostragem com determinadas características, são postas num mesmo ensaio;”
    E no final, a pontuação deixa a desejar:
    “Decidiremos que a desculpa do confinamento; do dinheiro e do jogo dá a todos elementos para agirem de maneira mais desumana possível”
    Não custa nada fazer uma boa revisão antes de publicar.

    • Álvaro, obrigado pela dica.
      Sem querer fugir pela tangente, realmente um pouco disso tem relação com a pressa. Mas quase todos os erros são defeitos de fabricação mesmo.
      Vou tentar ser mais atento ao que você disse, apesar de não ter conhecimento para isso.

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